quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Inconstante que era. Desde pequeno, em turmas do primário, correndo em movimentos aleatórios no pátio da escola. Inconstante que era em casa, observando as nuvens se desprenderem em pedaços menores e o vento levar as bolsas de algodão, inconstante que era.

A primeira namorada, inconsciente que era. Um tempo que passava rápido, uma tarde igual às outras, diferente, ao mesmo tempo em que sentia que era efêmero e eterno. A primeira traição, embaixo de marquises de concreto em um parque qualquer. Da primeira vez em diante as coisas não foram mais as mesmas, escondia fatos, arranjava álibis. Foi covarde, mas quem não é? Preferiu envenenar o que sentiam a estragar tudo num movimento repentino. Afinal, eram tardes tão belas.

Incongruente que era.

Vieram outras então, pequenas ondas num mar grande demais. Abandonava aos primeiros dissabores, enjoava nos segundos sorrisos, nas terceiras noites mal dormidas. Um dia saía, paletó em punho, e não voltava. Quatro semanas depois um bilhete, um recado, secretária eletrônica, e-mail. Na maioria das vezes nem era lido, o mês que passara foi suficiente pra curar as feridas. A vida era fácil então, faltava a profundidade necessária para se viver de fato.

Inconsciente que era. E que passou e se foi, e que se deixou levar pelo vento, pelas situações, pelas noites e pelos dias, pelos meses, anos, pelos momentos. E se viu procurando um rosto dezenas de vezes, e esquecendo defeitos outras tantas, e buscando traços que não estavam ali. E era um baile de sombras, que não buscava aquelas pessoas de fato, mas buscava uma sensação que dissesse, quem sabe, se essa é a certa, se esse é o momento, se a vida é mais do que aquilo que viera. Será que é verdade que o amor é fluido? É substancia do corpo, é suor, são lágrimas que caem, apenas mais uma reação química como tantas outras? Preferiu não pensar a fundo, pensar a fundo dói, o corpo treme, de noite não dorme. De dia apenas um vulto, vagando por corredores de escolas e teatros, sorrindo quando sorriem, acenando mesmo quando não acenam. Gargalhando até, uma risada da garganta pra cima, que daqui pra baixo está tudo seco, tudo é cinza, tudo é cimento. Preferia que daqui pra baixo tudo morresse, e quem sabe não descobre que o amor é só sexo, e que essa sensação quente é o único responsável pelo gelo do coração.

Inconsequente que era.

1 sarcasmos de quem lê:

Alice F. disse...

pensar a fundo dói, e dói muito. Vai ver é por isso que os meus tempos estão difíceis.