sábado, 14 de novembro de 2009

Luzes de natal.

Em todas as janelas luzes de natal. É novembro e tem luzes de natal. Dentro da minha cabeça ainda é julho e tem luzes de natal, dentro da minha cabeça tem luzes.

Que não são de natal.

Na minha cidade natal tem luzes, na do meu pai também. Na cidade que eu morava quando eu não morei em lugar nenhum também deve haver luzes. Lá os internos fazem lustres de papel machê e penduram no teto. Não se pode caminhar dois metros sem bater a cabeça em um desses malditos lustres. Mas são coloridos, formam um mosaico bonito, então eu até gosto deles, das cores e das luzes dentro do papel, das luzes quando o papel queima. Queima antes do natal.

E então se apagam. E fica tudo escuro. Que são luzes tão coloridas e tão bonitas que as pessoas hesitam antes de ligar as velhas luzes fluorescentes de antes. A claridade pálida incomoda aos olhos, faz tudo parecer um único hospital, e as pessoas ficam tristes e deprimidas fora da cabeça delas. Então elas se jogam pra dentro, onde ainda tudo brilha em tons verde, amarelo e dourado, onde as imagens são reais e as pessoas voam. Onde os presentes se acumulam. Dentro da cabeça delas é natal o ano todo, não qualquer natal, mas uma data perdida no tempo, muito tempo atrás, correndo de meias pela casa.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

#Spaceman

Mas então... Puxa a cadeira que a noite vai ser longa.

É hora da analise mensal, embora não saiba dizer se as coisas estão melhores que antes. Sinceramente não lembro o que aconteceu mês passado, eu tentei escrever, juro que tentei, deixei anotado em um caderno cada frase que eu pensei em dizer e coloquei em uma cápsula do tempo, enterrei no meu jardim e plantei um pé de zimbro por cima, que era pra marcar o lugar onde estava. No meio da noite me transformei em cachorro, bebi além da conta e cavei com meus dentes a terra até estraçalhar o pedaço de papel que estava enterrado. Ou vai ver eu estava sonhando.

Ou vai ver nem aconteceu. De nenhum jeito, não sei dizer.

Ou vai ver eu era o pedaço de papel que o cachorro devorou. Ou era o pé de zimbro que o homem plantou. Ou era a terra, antiga, imutável, fina como areia, essa terra há tanto tempo aqui. Preferia ser ela, pelo menos ela parece estar bem, faça chuva ou sol. Eu também estou bem a minha maneira, 20 anos me ensinaram a ser nada menos do que adaptável.

Adaptação é uma benção, me falaram.

Prometo que dessa vez imprimo, em letras tamanho 72, e cubro as paredes da minha sala pra não esquecer o que eu era quando eu for o mês-que-vem. Quando minha mente der outra volta em torno de si mesma e virar pelo avesso, quando eu gritar pra dentro do meu esôfago, quando eu me afogar em meu próprio sono. Quando eu estiver embriagado de ópio, uivando pra lua ou quando estiver em um quarto escuro, escrevendo palavras que não são minhas. Eu quero me lembrar, realmente quero, juro que quero, cada palavra não dita que chegou aos meus ouvidos.

 

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Inconstante que era. Desde pequeno, em turmas do primário, correndo em movimentos aleatórios no pátio da escola. Inconstante que era em casa, observando as nuvens se desprenderem em pedaços menores e o vento levar as bolsas de algodão, inconstante que era.

A primeira namorada, inconsciente que era. Um tempo que passava rápido, uma tarde igual às outras, diferente, ao mesmo tempo em que sentia que era efêmero e eterno. A primeira traição, embaixo de marquises de concreto em um parque qualquer. Da primeira vez em diante as coisas não foram mais as mesmas, escondia fatos, arranjava álibis. Foi covarde, mas quem não é? Preferiu envenenar o que sentiam a estragar tudo num movimento repentino. Afinal, eram tardes tão belas.

Incongruente que era.

Vieram outras então, pequenas ondas num mar grande demais. Abandonava aos primeiros dissabores, enjoava nos segundos sorrisos, nas terceiras noites mal dormidas. Um dia saía, paletó em punho, e não voltava. Quatro semanas depois um bilhete, um recado, secretária eletrônica, e-mail. Na maioria das vezes nem era lido, o mês que passara foi suficiente pra curar as feridas. A vida era fácil então, faltava a profundidade necessária para se viver de fato.

Inconsciente que era. E que passou e se foi, e que se deixou levar pelo vento, pelas situações, pelas noites e pelos dias, pelos meses, anos, pelos momentos. E se viu procurando um rosto dezenas de vezes, e esquecendo defeitos outras tantas, e buscando traços que não estavam ali. E era um baile de sombras, que não buscava aquelas pessoas de fato, mas buscava uma sensação que dissesse, quem sabe, se essa é a certa, se esse é o momento, se a vida é mais do que aquilo que viera. Será que é verdade que o amor é fluido? É substancia do corpo, é suor, são lágrimas que caem, apenas mais uma reação química como tantas outras? Preferiu não pensar a fundo, pensar a fundo dói, o corpo treme, de noite não dorme. De dia apenas um vulto, vagando por corredores de escolas e teatros, sorrindo quando sorriem, acenando mesmo quando não acenam. Gargalhando até, uma risada da garganta pra cima, que daqui pra baixo está tudo seco, tudo é cinza, tudo é cimento. Preferia que daqui pra baixo tudo morresse, e quem sabe não descobre que o amor é só sexo, e que essa sensação quente é o único responsável pelo gelo do coração.

Inconsequente que era.